Até este momento, este ano tem vindo a ser louco (referência ao ano de 2020). Um verdadeiro ensinamento de choque. Sofremos um ataque inclemente e devastador.

E o agressor não foi um vírus. O Sars-Cov-2 é um vírus normal, do tipo que se alastra e ataca o sistema respiratório. Ele comporta-se como todos os demais vírus já encontrados pela ciência no passado, e a maneira correta de lidar com ele — como com todos os vírus — é através da terapêutica médica e da adaptação imunológica.

No entanto, pela primeira vez na história, decidiram combater um vírus através do autoritarismo estatal, como se decretos, ordens e coerções violentas pudessem intimidar o vírus e fazê-lo desaparecer.

O Estado passou a encarar um vírus como se ele fosse uma sarna ou um piolho, e pudesse ser vencido por uma simples declaração de guerra contra ele, a qual se resumia a destruir todas as mais básicas liberdades civis.

Muito mais do que o novo coronavírus, o Estado (mais especificamente, os governantes) foi o grande agressor. Este assumiu o controlo total, realizando decretos aleatórios, nos quais especificou o que os cidadãos podiam e não podiam fazer e humilhou empreendedores e trabalhadores, ao especificar que  empreendimentos eram considerados essenciais (e podiam funcionar) e quais eram triviais (e, consequentemente, fechados). 

O Estado impingiu os seus decretos, fazendo uso do seu poder coercivo, recorrendo mesmo, por vezes, à violência para com pequenos empreendedores que apenas queriam trabalhar, destruindo milhares de pequenas empresas, levando pessoas à depressão (com aumento substantivo no número de suicídios), violando todos os direitos humanos mais básicos e despedaçando as vidas de incontáveis milhões ao redor do mundo.

E tudo o que Estado precisou para alcançar os seus resultados foi utilizar a habitual propaganda e coerção via comunicação social, num esforço para convencer os seus acólitos a acreditar na pré-moderna e não-científica (e essencialmente infantil) ideia de que a maneira correta de lidar com um vírus era fugir e esconder-se dele, ignorando completamente o facto de que os seres humanos evoluíram lado a lado com vírus ao longo de milhões de anos. Esquecemos tudo o que aprendemos com ciência no século XX.

O governo tentou amedrontar e expulsar o vírus com retórica e violência, demonstrando ser eficiente numa das suas mais exímias habilidades: a capacidade de controlar e amedrontar as pessoas.

Daqui a alguns anos, olharemos para trás e veremos o que realmente aconteceu, ao analisarmos dois conjuntos de dados: a média de mortes ao longo de um período de cinco anos, a qual não irá revelar nada de atípico (e este facto irá atordoar as gerações futuras), e os dados do PIB, que revelarão uma brutal devastação económica jamais antes vista no mundo moderno, nem mesmo em períodos de depressão ou guerra.

Essa grande supressão destruiu não apenas sectores inteiros da indústria, das artes e dos serviços, como também, e ainda mais fundamentalmente, abalou a confiança das pessoas em relação a aspectos que até então dávamos como garantidas, como liberdade civil, leis e proteção da propriedade contra agressões.

Quanto mais cedo reconhecermos que o verdadeiro inimigo é o Estado e a sua total liberdade para permitir ou proibir em função dos seus interesses, mais rapidamente poderemos garantir que nada disso jamais volte a ocorrer. 

Eis as 20 maiores lições que aprendemos até agora em 2020.

1) Os governos são totalmente capazes de fazerem o impensável (e de maneira repentina), sem nenhuma estratégia ou plano, sem qualquer noção de custos económicos e sociais envolvidos nas suas medidas, revelando total desconsideração pelos mais básicos direitos individuais.

2) Nenhuma Constituição efetivamente protege os cidadãos e salvaguarda os seus direitos básicos. Indiscutivelmente, estes tornam-se irrelevantes quando os governos declaram uma emergência.

3) O lobby empresarial é bem menos poderoso do que se imaginava.

4) Vários políticos importam-se muito mais com a manutenção do seu poder pessoal do que com a opinião pública.

5) As pessoas, em grande parte, são muito menos preocupadas com as suas liberdades do que o que seria de imaginar.

6) A esquerda progressista nunca esteve realmente preocupada com os pobres e muito menos comprometida com liberdades civis. Nem sequer se preocupa com a privacidade individual e com a educação infantil.

7) A compreensão de conceitos económicos básicos é algo raro.

8) Não existe um “consenso científico”. Cientistas da mesma área discordam entre si e, às vezes, até radicalmente, muitas vezes por motivos puramente políticos.

9) A estrutura da lei, do direito e do estado é perfeitamente capaz de sofrer alterações dramáticas e até mesmo repentinas. As cortes superiores protegem os políticos e não os cidadãos.

10) Os média perderam completamente o manto da imparcialidade e da informação. Agora, estes reportam apenas a narrativa que lhes interessa, suprimindo todos aqueles que tenham uma visão distinta.

11) As credenciais profissionais são úteis, mas deixaram de ser decisivas para qualquer debate. Pior: passaram a ser usadas como armas.

12) A maioria das pessoas não possui a mais mínima ideia de como ler estatísticas e de como analisar números – para muitas, dados são apenas abstrações.

13) Praticamente nenhum grupo político ou grupo de interesse está genuinamente preocupado com os pobres, com a classe trabalhadora e com os grupos marginalizados — pelo menos, não o suficiente ao ponto de colocar os interesses deles acima de interesses pessoais. 

14) Muito frequentemente, os “princípios” que as pessoas proclamam ter não passam de uma falsa sinalização de virtude, apenas para parecerem virtuosas e compassivas nas redes sociais.

15) A propagação da verdade está em desvantagem em relação à propagação de erros e mentiras.

16) A ciência já conhecida e estabelecida pode perfeitamente ser esquecida numa geração.

17) Por mais que as nossas instituições aparentem ser inteligentes e impressionantes, elas não foram criadas e muito menos são geradas por pessoas igualmente inteligentes.

18) O mercado é ainda mais impressionante do que o esperado. A rapidez dos empreendedores em adaptar-se a condições exigentes e contrárias, ao ponto de nos manter vivos e com entretenimento, é algo louvável.

19) A saúde psicológica da maioria das pessoas está diretamente ligada aos seus direitos de posse e às suas liberdades. 

20) A coragem moral individual é o tesouro mais precioso de uma sociedade. É tão rara quanto poderosa.

Artigo publicado originalmente no site do Instituto Mises Brasil.

Autor: Jeffrey Tucker é Diretor-Editorial do American Institute for Economic Research. Ele é também gerente da Vellum Capital e Investigador Sénior do Austrian Economic Center em Viena, Áustria.  Associado benemérito do Instituto Mises Brasil, fundador e Diretor de Liberdade do Liberty.me, consultor de companhias blockchain, ex-editor editorial da Foundation for Economic Education e Laissez Faire books, fundador da CryptoCurrency Conference e autor de diversos artigos e oito livros, publicados em 5 idiomas. Palestrante renomado sobre economia, tecnologia, filosofia social e cultura.  

Tradução de Álvaro Oliveira

Nota: As visões expressas em misesportugal.com não são necessariamente as do Instituto Mises Portugal.

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