A quantidade de pessoas a conhecerem e a identificarem-se com a Escola Austríaca e o livre mercado cada vez é maior. Infelizmente, a Escola Austríaca é muitas vezes vista apenas como uma fação mais radical da Escola de Chicago. Neste artigo, pretende-se demonstrar que essa visão é errada e que de facto existem muitas diferenças entre estas.

É comum as pessoas confundirem austríacos e monetaristas, pois ambos já se uniram com o objetivo de influenciar muitos regimes. Por exemplo, Hayek e Friedman influenciaram o governo de Thatcher no Reino Unido e o governo de Ronald Reagan nos Estados Unidos.

Diferenças a nível metodológico  

Mises, na sua obra-prima “Ação Humana”, demonstra que a economia é apriorística e as suas teorias podem ser logicamente deduzidas a partir do princípio fundamental da “ação humana”, ou seja, de que indivíduos agem com o objetivo de passar de um estado de menor satisfação para um estado de maior satisfação. Então, para os austríacos, as leis económicas podem ser logicamente deduzidas sem precisarem de ser demonstradas por testes empíricos.

Já os monetaristas acreditam que o método das ciências sociais deve ser igual ao método que é usado nas ciências naturais. No trabalho de Friedman “Metodologia de Uma Economia Positiva”, é possível perceber esse claro monismo metodológico, através do uso de modelos matemáticos para analisar o mercado. Para Friedman, para analisar a ciência económica é necessário recorrer ao teste empírico, ao contrário da Escola Austríaca que acredita que a economia é uma ciência apriorística.

Os modelos matemáticos adotados por Friedman e pelos monetaristas são errados, porque não têm em conta a imprevisibilidade da ação humana nem toda a complexidade do sistema que pretendem analisar. Ao contrário da física ou da biologia, as ciências sociais trabalham com pessoas racionais que tomam decisões de maneira deliberada. A ação humana depende sempre de escolhas subjetivas, o que faz com que esta seja impossível de prever por modelos matemáticos.

Processo vs equilíbrio no mercado

Uma das maiores discordâncias entre austríacos e monetaristas é a maneira de ver o mercado. Os monetaristas geralmente trabalham com modelos de equilíbrio, em que o mercado se vai ajustando via preços, sendo o mercado um estado estático que se encontra constantemente em um estado de equilíbrio. Já os austríacos têm uma visão muito mais realista. 

Os austríacos têm em conta que o conhecimento humano é limitado e que existem claros limites na interpretação de determinados fenómenos. Devido aos claros limites do conhecimento humano, os indivíduos vão cometendo erros e vão aprendendo com eles. O mercado é o sítio onde se transmite e se adquire esse conhecimento. 

Então, os mercados são processos dinâmicos que não chegam a um equilíbrio, mas caminham para lá, pois os indivíduos vão adquirindo conhecimento ao longo do tempo. Muito infelizmente, hoje os monetaristas não têm em conta que o tempo é dinâmico e ele tem que ser levado em conta na análise económica.

Teoria monetária 

A nível da moeda, a Escola Austríaca também se distancia dos monetaristas. Analisemos quais as suas diferenças em relação à teoria monetária.

A primeira diferença que não é muito falada, mas que acaba por ter a sua importância, é o facto de os monetaristas não aplicarem a lei da utilidade marginal decrescente à moeda, como Mises o fez. Eles acreditam que existe uma separação entra macroeconomia e microeconomia, enquanto que com o teorema da regressão de Mises conseguimos fazer uma junção que antes nunca tinha sido feita e mostrar de facto como surgiu a moeda, como ela tem poder de compra e de que depende a procura por moeda, acabando com o problema da circularidade da escola austríaca.

Talvez a única concordância entre os austríacos e os monetaristas seja o facto de ambos considerarem sempre a inflação como um fenómeno monetário. Ambas as escolas concordam que um excesso de moeda provoca sempre inflação. Mas mesmo neste ponto os monetaristas fazem uma abordagem incompleta. Eles baseiam-se muito na famosa equação da teoria quantitativa da moeda: MV=PY

O M nesta equação corresponde à quantidade de moeda existente na economia, o V corresponde à velocidade da moeda. Já o P ao nível geral de preços e o Y corresponde ao produto interno bruto (PIB). 

A teoria quantitativa da moeda (TQM) erra ao não entender que um aumento de M, provocará não só um aumento na quantidade de bens produzidos como vai ser desigual ao longo da estrutura de capital, levando a que os setores da economia mais indiretos sejam mais afetados do que os setores mais diretos da economia. 

Outro erro da teoria quantitativa da moeda é considerar a moeda como neutra a longo prazo. Assim, se existir uma expansão na quantidade de moeda na economia, esta pode afetar o PIB e o nível de emprego na economia, mas a longo prazo ela só afeta o nível geral de preços. Os preços relativos são afetados de maneira uniforme, na visão monetarista. Isto significa que se existir uma expansão monetária de 20%, os preços dos produtos irão subir todos exatamente 20%, desde o avião até ao bolo.

Para os austríacos, a moeda não é neutra e não afeta de maneira uniforme os preços relativos. A nova moeda entra num setor específico na economia e vai circulando pelo mercado, afetando de maneira desigual os preços relativos. Se existir uma expansão monetária de 20%, o aumento dos preços dos bens não será uniforme em todos eles. Além disso, aumentos constantes na quantidade de moeda por parte de uma entidade como o banco central, faz com que a longo prazo tenhamos desemprego, pois inflação gera desemprego, ao contrário do que diz a curva de Philips. Esse mesmo desemprego irá ser maior nos estágios de produção mais indiretos da economia, não existindo uniformidade. A moeda também provoca recessões e ciclos económicos, pois a taxa de juro é o que permite uma coordenação entre o investimento e consumo.

Ciclos económicos 

A visão da Escola Austríaca em relação aos ciclos económicos é cada vez mais conhecida e a crescente reputação dos austríacos deve-se em grande parte a esta teoria que é, de facto, espantosa.

A visão austríaca acredita que a moeda, para além de ser um mero objeto que serve para trocas indiretas, permite uma coordenação no mercado entre o investimento e o consumo. Neste caso, a taxa de juro é fundamental, pois ao pouparmos, estamos a disponibilizar esse mesmo dinheiro, entregando-o a pessoas que o pretendem utilizar nesse mesmo momento, muito provavelmente para fazer um investimento. A taxa de juros acaba por ser esse preço temporal que permite uma coordenação entre todos os agentes. 

Quando a taxa de juros está baixa, permite que investimentos que impliquem mais tempo sejam realizados. Se essa taxa de juros corresponder a poupança, o que vai acontecer é que vai existir uma boa realocação de bens ao longo da estrutura de capital, fazendo com que esses bens quando forem finalizados possam ser consumidos pelos indivíduos. Isto cria uma coordenação temporal no mercado.

Quando os bancos centrais injetam dinheiro na economia é causada uma descoordenação: as taxas de juros caem artificialmente e permitem que investimentos de maior duração sejam realizados. Desta forma, as indústrias dos bens de capital vão crescer, fazendo com que haja um crescimento da produção nessas indústrias. 

As rendas dos indivíduos que trabalham nas indústrias dos bens de capital aumentam em relação às indústrias de bens de consumo. Irá existir uma má realocação de capital, fazendo com que haja uma disputa por crédito entre as indústrias dos bens de capital e as indústrias dos bens de consumo. 

Devido a essa disputa por crédito, a taxa de juros e os preços nesses setores aumentam. Como a renda nas indústrias de bens de capital é maior do que as indústrias dos bens de consumo, irá existir escassez nestes últimos, fazendo com que as rendas dos indivíduos das indústrias dos bens de consumo aumentem.

Como consequência do aumento da taxa de juros, os investimentos a longo prazo vão-se tornar menos viáveis, fazendo com que muitos projetos sejam liquidados e que haja desemprego nas indústrias dos bens de capital. Esta é a resposta dos austríacos para a grande depressão americana de 1929 e para a crise de 2008.

Este seria um pequeno resumo da teoria austríaca dos ciclos económicos, mas agora vamos ver qual a análise monetarista e qual a sua receita para que ciclos económicos possam ser evitados.

Como nós já constatámos, os monetaristas guiam-se muito pela equação da teoria quantitativa da moeda (TQM). Na sua visão, historicamente, o M (quantidade de moeda na economia) é instável e o V (velocidade da moeda) é estável, não no sentido de ser constante, mas no sentido de se conseguir prever e se ir alterando devagar ao longo do tempo. Já se a economia estiver numa situação de pleno emprego, o Y é estável e um aumento em M somente afeta P. Então, já que M é instável, o segredo está em fazer com que M vá crescendo a uma taxa constante. Essa taxa de crescimento deve ter em conta o aumento da população, o aumento do PIB e o aumento da produtividade. 

Então, para Friedman, os ciclos económicos dão-se todos devido à instabilidade da moeda. A grande depressão de 1929, para Friedman, tinha como principal culpado o FED, mas por uma razão diferente: para os monetaristas o banco central americano expandiu a oferta monetária de uma maneira muito instável e acabou por ser muito tímido. 

Conclusão

Podemos concluir que realmente existem bastantes diferenças entre austríacos e monetaristas, apesar de ambos defenderem o livre mercado e um Estado limitado (até a sua inexistência em muitos casos). A interação entre as duas chega até a ser conflituosa em muitos casos, apesar de Hayek e Friedman terem colaborado e até trabalhado juntos.

Nota: As visões expressas em misesportugal.com não são necessariamente as do Instituto Mises Portugal.

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