Somos bombardeados todos os anos, através dos meios de comunicação social tradicionais, com os números da inflação e a diferença para aquilo que é o habitual target do Banco Central Europeu para a mesma: 2%. Durante essa peça jornalística, são-nos também habitualmente transmitidos os benefícios que a inflação representa para a estabilidade da economia e por conseguinte, para o emprego e para as nossas vidas. 

A teoria keynesiana afirma que alguma inflação é algo positivo para a economia e por isso defende que é importante incentivar as pessoas a gastar o seu dinheiro comprando bens e serviços gerando assim maior riqueza. Assim, argumentam, uma forma de fazer isso é fazendo com que o dinheiro perca valor com o tempo, incentivando as pessoas a anteciparem as suas compras.

Os economistas keynesianos abordam assim o tema do consumo humano de uma forma racional e assumem que todo e qualquer consumidor o faz também numa base diária e em qualquer item que compra. A realidade é que o consumo tem não só uma componente irracional mas também de necessidade, que se transpõe a qualquer teoria económica. Assim, poucos são os consumidores que têm o fator inflação em conta nas suas decisões de compras de bens e nenhum em serviços. Se é certo que não utilizamos mais portagens em dezembro porque sabemos que o preço vai ser atualizado em janeiro, não é menos relevante perguntar quantos consumidores acumulam bens alimentares ou de vestuário para evitar a inflação “esperada no próximo ano”? No máximo, alguns indivíduos podem ter o fator inflação em conta nas suas decisões de investimento, o que é algo bem diferente.

A deflação como bicho papão da economia é outro mito que felizmente podemos contrariar. Segundo os economistas keynesianos, num cenário de deflação as pessoas adiam as suas compras porque sabem que os mesmos produtos se vão tornar mais baratos. 

Ora, podemos pegar no setor da eletrónica para afirmar que tal é falso. Os ganhos de escala e de produtividade do sector resultaram numa deflação massiva no preço dos componentes eletrónicos e respetivos produtos finais. Facilmente conseguimos pensar na evolução negativa dos preços das TV’s, discos rígidos e memórias ao longo dos anos, o que nunca travou as pessoas de comprarem este tipo de produtos. Aliás, as vendas dos mesmos têm acelerado ano após ano porque, no limite, as pessoas atualizam mais vezes os seus equipamentos de forma a estarem mais bem equipadas na crescente conectividade tecnológica.

A deflação esperada nessa indústria não afastou assim o consumidor de comprar um determinado produto porque ele quer e/ou necessita desse produto agora e não no próximo ano.

Continuamos a assistir a esta narrativa porque inflação, e tal como em tantos outros casos, beneficia em ultima instância nada mais nada menos do que o Estado. Esta forma de imposto adicional sobre a poupança é controlado e utilizado em primeiro lugar pelo Estado. Ainda que possa circular do estado para a economia, o mesmo não é depositado na conta de cada um de nós e por isso beneficia mais os seus primeiros usuários (efeito Cantillon). Assim, Estado, bancos e grandes empresas (através de contratos públicos) beneficiam de novo dinheiro que ainda não chegou à maioria da população, ainda que esta comece desde logo a sentir aumento de preços.

Inflação existiria naturalmente sem interferência estatal, mas não beneficiaria o Estado e não seria tão alta. O Estado obviamente não alinha numa solução que não o beneficia e não o ajuda a continuar o seu percurso de crescimento, a sua missão última.

Perante os receios de inflação acrescida devido à emissão massiva de nova moeda durante o último ano, creio que questionar este tema se torna mais importante do que nunca, não só no que às decisões estatais diz respeito mas também aos efeitos que essas mesmas decisões terão na vida da maioria das pessoas, principalmente aquelas que têm poupanças mas não investimentos que suavizem este impacto.

Nota: As visões expressas em misesportugal.com não são necessariamente as do Instituto Mises Portugal.

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