O FED está a convidar a inflação devido à aplicação da teoria monetária moderna.

Muito recentemente o investidor Michael Burry, conhecido por ter previsto a crise de 2008 nos Estados Unidos e por ter enriquecido bastante graças a essas mesmas previsões, publicou no Twitter sobre a eventual possibilidade de um aumento repentino na taxa de inflação nos Estados Unidos, podendo afetar ativos como o Ouro e as recentes criptomoedas que têm garantido a preservação do poder de compra dos investidores em momentos de instabilidade económica ou de depreciação da moeda.

Conseguimos observar abaixo exatamente os comentários feitos pelo investidor norte-americano no seu Twitter:

No primeiro tweet, Michael Burry diz que o FED está a convidar a inflação devido à aplicação da teoria monetária moderna, uma vez que a quantidade de moeda em circulação tem subido bastante nos últimos tempos. No segundo, ele faz uma comparação entre a atual situação dos Estados Unidos e a hiperinflação alemã nos anos 20. Já no terceiro, o investidor pede para não se subestimar o poder da emissão de moeda afirmando que podem existir consequências severas no mercado. Já no último, existe apenas um aviso por parte do norte-americano sobre o real risco de inflação nos Estados Unidos. 

Antes de comentar acerca destes mesmos avisos, gostaria de começar por definir inflação e o seu significado. O termo inflação, antigamente, era usado quando o monarca de um determinado país falsificava a moeda de ouro dissolvendo-as com um outro metal e aumentando assim a base monetária. Consequência deste processo é o aumento generalizado e sustentado dos preços dos bens e serviços. Hoje estamos convencidos que inflação corresponde somente ao aumento do nível de preços, mas isso foi uma deturpação de termos que existiu recentemente. Apesar de tudo isto, irei referir-me a inflação neste artigo ao termo moderno que não diz respeito a um simples aumento na oferta de moeda. 

Talvez a maior diferença da situação atual para o ano de 2008 é o facto de os estímulos e o défice fiscal serem diferentes. No ano de 2008 existia sim um aumento na base monetária, mas esta ficava apenas na conta dos bancos, não afetando nem M1 (dinheiro que se encontra em circulação na economia) nem M2 (M1 + depósitos existentes de curto prazo que as pessoas têm no sistema financeiro). Em contrapartida, podemos observar no gráfico abaixo o grande aumento que tem existido na quantidade de M2 na economia:

É bastante visível no gráfico acima que entre os anos de 2020 e 2021 tem existido um elevado aumento na quantidade de moeda em circulação, o que é bastante preocupante. Conseguiu até superar os acréscimos na quantidade de moeda em circulação dos anos 70, marcados pelo conhecido fenómeno designado de “estagflação” (inflação acompanhada de estagnação económica). No total, desde o início de 2020 até fevereiro de 2021, existiu um aumento em cerca de 27,1% na quantidade de M2.

Apesar disto tudo, podemos verificar que tem existido um crescimento moderado na taxa de inflação, na ordem dos 2%. Estariam então os defensores da teoria monetária moderna corretos? Que basta emitir moeda à vontade que não existe risco de inflação, que somente a política fiscal é capaz de conduzir a economia para o pleno emprego e que se existir de facto inflação, basta ligar os “estabilizadores automáticos” (aumento na carga fiscal, por exemplo). A minha resposta a esta questão é não, existem muitos fatores para não ter existido ainda um aumento generalizado dos preços, como por exemplo, o facto da taxa de poupança ainda se encontrar bastante elevada. Devido à elevada incerteza que existe no mercado devido à pandemia, as pessoas alteraram as suas preferências temporais repentinamente, causando uma diminuição na velocidade da moeda na economia e não provocando desta forma um aumento generalizado nos preços dos bens e serviços. Com a recente vacinação a nível global e o lento desconfinamento das pessoas esse dinheiro pode deixar de estar retido no bolso das pessoas e pode existir um aumento repentino na inflação podendo igualar facilmente a década de 70, onde a taxa de inflação chegou a incríveis dois dígitos nos Estados Unidos. 

A questão atualmente é entender se esta inflação vai ser algo momentâneo (cerca de 1 ou 2 anos) ou se poderá ser arrastada e prolongada por muitos mais anos. A primeira situação é possível caso o governo americano tenha rigor nos gastos públicos adotando medidas de austeridade, o que não será muito provável, uma vez que o presidente norte-americano Joe Biden tem aumentado os gastos públicos de uma forma assustadora. 

Outra crença de Michael Burry é de que o Ouro e as criptomoedas como o Bitcoin correm risco pelo simples motivo dos governos geralmente não gostarem de concorrência no campo monetário e uma vez que estes ativos são utilizados pelas pessoas como forma de se protegerem a crises económicas ou quando começa a existir um certo ceticismo em relação à eficiência da moeda fiduciária, é muito provável que os governos adotem medidas sérias em relação à compra de ouro e Bitcoin. Um dos maiores exemplos históricos que comprovam esta afirmação foi o ano de 1933 quando o presidente americano Franklin D. Roosevelt proibiu a posse de ouro, obrigando os cidadãos americanos a entregarem o Ouro em troca de notas do FED. Outro exemplo histórico foi o fim do sistema de Bretton Woods quando os Estados Unidos acabaram com a conversibilidade do dólar em ouro no ano de 1971, tornando o dólar uma moeda fiduciária. 

O Bitcoin e as outras criptomoedas também não irão variar muito, uma vez que também fazem concorrência ao governo no campo monetário. Apesar de tudo, o Bitcoin é bastante difícil de confiscar, uma vez que é uma moeda totalmente descentralizada e digital, logo o mais provável é que essas restrições afetem mais o ouro. 

A conclusão a que podemos chegar é que as medidas irresponsáveis adotadas pelo FED podem ter consequências severas na economia americana, podendo causar talvez a maior crise que os Estados Unidos já viveram e provocar uma séria desconfiança por parte das pessoas tanto em relação ao dólar americano quanto à moeda fiduciária no geral. As soluções que existem para tentar mudar o sistema monetário dos dias hoje são uma eventual volta ao padrão-ouro, que garantiu uma certa estabilidade monetária a diversos países europeus e aos Estados Unidos durante anos ou a total desestatização da moeda, existindo concorrência no campo monetário, como propôs o economista austríaco F.A. Hayek.

Nota: As visões expressas em misesportugal.com não são necessariamente as do Instituto Mises Portugal.

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