Fazer uma recensão de uma nova edição de Economics de Paul Samuelson é uma tarefa tão impossível quanto passar revista, de forma resumida, ao estado atual da própria ciência económica americana. Este espetacular best-seller na história dos manuais de economia inspirou uma flotilha de imitadores. Uma nova edição aparece a cada triénio, repleta de cores, gráficos, diagramas e das mais recentes técnicas de layout profissional – e rodeada de naves satélite: manual do professor, livro de exercícios, leituras auxiliares, transparências, bancos de testes, e por aí adiante.

Não é por acaso que, a cada nova edição, as cores ficam mais chamativas e, mais importante ainda, o volume se torna ainda maior (868 páginas na oitava edição, 917 na nona agora publicada). Pois o que o desafortunado universitário descobre em Samuelson e no seu rebanho de imitadores é um vasto pot-pourri (ou monturo, consoante o ponto de vista) de pedaços e pedacinhos de técnica e de dados, nenhum dos quais integrado num todo digerível ou compreensível. Samuelson concluiu o prefácio à sua nova edição afirmando, no seu estilo tipicamente arejado: “A minha inveja é para com o leitor, que se prepara para explorar o excitante mundo da economia pela primeira vez … permitam-me apenas dizer, bon apetit!” (p. xii). Em contraste, a minha compaixão está com o pobre estudante desnorteado, confrontado com este ensopado gigantesco, que vai desde piadas opinativas até ao Paradoxo de Giffen, à análise da produtividade marginal, aos modelos de crescimento de Harrod-Domar-Modigliani, às notas sobre economistas do passado e do presente, até à mais recente ultra-sofisticação na análise de reswitching. O que é que ele deve retirar de tudo isto? Não é de admirar que a economia seja quase universalmente considerada a disciplina menos apreciada do currículo universitário. Não é apresentado ao estudante um quadro claro e coerente, com orientações convincentes sobre o que trata a economia. Em vez disso, partindo de um conhecimento quase nulo sobre a disciplina, só lhe resta aguentar-se, memorizar como um louco, e rezar para que o curso termine e os seus seis créditos sejam alcançados. Não que os outros principais manuais sejam muito melhores; Economics de Samuelson distingue-se dos seus rivais, principalmente, por ser maior, mais indigesto, e repleto das piadas petulantes e mal fundamentadas com que Samuelson costuma rejeitar visões económicas divergentes.

Quer o manual de Samuelson, quer a maioria dos restantes manuais, ficam mais extensos a cada nova edição porque são escritos como compêndios da opinião económica acumulada até ao momento da publicação. Portanto, há muito pouco que seja deixado cair; à medida que novos problemas económicos são enfrentados na sociedade, mais capítulos – mais áreas problemáticas – são acrescentados ao livro, quer a nova moda seja o subdesenvolvimento ou o desemprego ou a inflação ou a New Left ou a ecologia. Assim, a sua própria natureza faz com que seja praticamente impossível estes manuais liderarem a profissão, ou as preocupações da sociedade, ou, por outro lado, preparar o estudante para os novos problemas que ele está destinado a enfrentar no mundo em que em breve entrará. Em vez disso, estes manuais chegam sempre e inevitavelmente depois do acontecimento, acrescentando mais uma nova secção ou capítulo sobre uma qualquer moda considerada “relevante” aquando da revisão, para no fim descobrir que o assunto ficou obsoleto logo após a sua publicação. Entretanto, mais alguns pedaços indigestos foram adicionados permanentemente ao ensopado. Quão melhor seria parar de tentar abordar todos e quaisquer tópicos concebíveis em economia e, em vez disso, pegar nos fundamentos básicos da teoria económica e desenvolvê-los cuidadosa e extensivamente (como fazem, por exemplo, Alchian e Allen no seu brilhante University Economics, embora também este esteja muito acima do nível adequado a curso introdutório básico).[1]

Antes de nos voltarmos para as especificidades da nona edição, deve dizer-se que, à semelhança das oito edições precedentes, este manual sofre das principais deficiências já características da atual ciência económica americana: nomeadamente, a ênfase estéril nas condições de um equilíbrio estático que nunca poderá (nem deverá) existir, e as repetidas melodias do modelo keynesiano, apresentadas sem qualquer indicação das suas principais falácias e lacunas. Por fim, à semelhança das edições anteriores, a nona de Samuelson raramente prepara o leitor para enfrentar o mundo real da inflação crescente ou a realidade recorrente de uma recessão inflacionária. Nenhuma explicação convincente é oferecida para estes fenómenos indesejados mas em proliferação.

A principal inovação desta nona edição de Samuelson, em comparação com a oitava, é a sua sincera tentativa de diluir o agressivo e monolítico “centrismo” que marcou as suas edições anteriores. Nesta edição, o autor tenta introduzir os seus alunos a outras visões contrastantes da economia: desde os marxistas e os new leftists à sua esquerda, até Milton Friedman e a escola de Chicago à sua direita. Deixar os universitários deste País terem contacto com outras formas sérias de economia que não o seu próprio centrismo é, obviamente, de aplaudir, e servirá, esperamos nós, para ensinar ao aluno que há mais economia para além dos caprichos de um só homem (ou mesmo da maioria).

Há ainda muito por fazer, pois os pontos de vista críticos não são apresentados como partes integrantes do corpo da ciência económica, mas simplesmente como mais uns pedaços indigestos a adicionar ao nosso ensopado cada vez mais incongruente. Veja-se, por exemplo, a forma como Samuelson lida com as numerosas e convincentes críticas à validade do PNB enquanto critério de bem-estar. O PNB e os conceitos a si associados têm sido centrais para a economia keynesiana à moda de Samuelson desde a estreia do seu manual em 1948. Após ter sido letalmente sujeito, durante quase quatro décadas, a críticas tanto da direita como da esquerda, Samuelson vê-se obrigado a reconhecer e até mesmo incorporar, de alguma forma, essas críticas na sua obra. Em vez de ganhar a tão esperada humildade para reconhecer que o PNB e semelhantes conceitos são inadequados na sua própria essência (o que teria de fazer se, por exemplo, levasse a sério as explicações de Alex Rubner e Oskar Morgenstern), Samuelson agarra-se simples e agressivamente ao PNB, atrelando-lhe mais um conceito defeituoso e imensurável, o do “bem-estar económico líquido” [net economic welfare – NEW], avançado por Nordhaus e Tobin. Em vez de descartar ou, pelo menos, despromover o PNB, Samuelson acrescenta-lhe simplesmente um NEW, numa tentativa inócua de, por exemplo, medir conceitos tão imensuráveis ​​quanto o lazer ou os “desconfortos” do quotidiano (pp. 195-97).[2]

Na sua nova discussão sobre “discriminação sexual” no mercado de trabalho, Samuelson sai-se ainda pior, pois aceita ingénua e acriticamente as acusações simplistas do movimento pela emancipação das mulheres de que os salários mais baixos das mulheres representam simplesmente uma discriminação e uma “exploração” por parte dos empregadores. Em alguns pontos, a retórica de Samuelson é praticamente tão histérica quanto a das feministas: “Quem é explorado? As mulheres, é claro. Quem é o explorador? Num certo sentido, os homens, que estão, por assim dizer, a meter-se aos ombros das mulheres subjugadas” (p. 798). Samuelson não coloca sequer a possibilidade de a produtividade marginal feminina ser mais baixa do que a dos homens. Se assim não fosse, os empregadores poderiam obter um lucro extra ao contratar apenas mulheres por um salário mais baixo. Porque é que não o fazem? Samuelson também não menciona as importantes descobertas empíricas de Victor Fuchs, de que os rendimentos das mulheres que trabalham por conta própria são relativamente mais baixos, face aos dos homens, do que os das que se encontram empregadas, o que coloca diretamente em causa o pressuposto da discriminação sexual por parte dos empregadores.[3]

Numa tentativa de dar uma maior relevância aos pontos de vista mais à sua direita dos economistas favoráveis ao livre mercado, Samuelson cai no erro flagrante de incluir Friedrich A. Hayek entre os “libertários da Escola de Chicago” e, a seguir, inverte e exponencia o erro ao incluir Frank Knight na “Escola Austríaca” (um termo que deixa por explicar). Se Samuelson tivesse dedicado aos libertários uma parte do cuidado que dedicou à distinção entre as várias correntes e ramificações do marxismo, teria obrigatoriamente investido algum tempo a distinguir entre estas duas variantes muito distintas da economia de livre mercado.

Noutras áreas, a nona edição de Samuelson limita-se a repetir os erros e falácias da oitava. Assim, na sua última página, Samuelson tenta refutar a brilhante e complexa análise e advertência de Hayek, em O Caminho para a Servidão, simplificando-a para lá do reconhecível e descartando-a, depois, através de um totalmente ilegítimo diagrama de “regressão” entre a “liberdade económica” e a “liberdade política”. Ainda que colocássemos de parte a incoerência deste tipo de regressão e a impossibilidade de “medir” tais liberdades, o que é que poderíamos dizer de um diagrama que atribui ao Terceiro Reich de Hitler virtualmente o mesmo grau de liberdade económica que aos Estados Unidos de 1973? Será que Samuelson não sabe que o Terceiro Reich era uma economia coletivizada e planificada? Também fica por esclarecer a razão para os países comunistas nem chegarem a aparecer neste diagrama. Talvez uma réstia de dúvidas tenha invadido o pequeno mundo em que Samuelson pode pedir um governo cada vez maior na esfera económica esperando ainda assim manter as liberdades civis intactas. Isto porque, de facto, o autor decidiu omitir da presente edição (p. 885) a nota incluída na edição anterior a respeito do diagrama das liberdades (p. 834), e que dizia assim: “Desde a época da caça às bruxas do senador Joseph McCarthy, em 1953, as liberdades políticas dos cidadãos americanos foram aprofundadas, apesar de o papel económico do governo ter aumentado.” Talvez o Professor Samuelson tenha pressagiado profeticamente os horrores que estavam prestes a revelar-se em Watergate!

Outra infeliz repetição consiste no facto de Samuelson voltar a não dedicar atenção suficiente aos ciclos económicos e às teorias que explicam esse fenómeno. Agora que se demonstrou que os ciclos económicos ainda são uma realidade, já não nos podemos conformar com a garantia keynesiana de que os ciclos foram abolidos pela política fiscal e que são coisa do passado, mesmo que acrescentemos ao arsenal dos nossos dirigentes a ferramenta extra do monetarismo “friedmaniano”. Daí que só possa considerar-se inadequada a breve e enganadora nota de rodapé, trazida das edições anteriores, que pretente resumir as várias teorias dos ciclos económicos. A teoria austríaca é tratada (na sua totalidade) de uma forma quase escandalosa: “A teoria do sobreinvestimento… afirma que é o excesso e não a falta de investimento que provoca as recessões (Hayek, Mises, et al.)” (P. 256n). Neste caso, competiria a Samuelson debruçar-se minimamente sobre esta teoria, esclarecendo que (a) o “sobreinvestimento” é causado pela contínua inflação monetária levada a cabo pelos bancos, e que (b) o resultado da expansão de crédito bancário é um sobreinvestimento em bens de capital de “ordens mais elevadas”, ao qual corresponde um subinvestimento nas indústrias de bens de consumo.[4]

Para além disso, e apesar de não apresentar qualquer evidência, Samuelson repete o mito das crescentes desigualdades de rendimento entre os países avançados e os países subdesenvolvidos. Não encontramos a mínima alusão, da parte de Samuelson, ao subtil e sofisticado trabalho que Peter T. Bauer tem vindo a realizar ao longo de muitos anos, mostrando que essa tão veiculada afirmação não passa de mitologia.[5]

Por fim, o ímpeto de Samuelson para incluir todo e qualquer desenvolvimento verificado na profissão ou na economia descurou, por negligência, aquele que é talvez o desenvolvimento mais importante da profissão de economia na última década: a análise de Coase-Demsetz sobre a importância dos direitos de propriedade e dos custos de transação, bem como o uso de conceitos relacionados para analisar os diferentes problemas das externalidades em economia. O facto de Samuelson não fazer nem uma única menção à temática dos custos de transação ou à análise dos direitos de propriedade demonstra que talvez o nosso chef do ensopado de economia tenha uma certa tendência para ignorar os desenvolvimentos que ocorrem entre os seus colegas defensores do livre mercado.

Em suma, a nona de Samuelson representa uma melhoria considerável em relação às edições anteriores. Pelo menos, há uma tentativa, ainda que débil, de chamar a atenção para diferentes pontos de vista da economia. Contudo, Samuelson tem um longo caminho a percorrer, e não apenas no sentido de passar a incluir importantes conceitos teóricos e novas investigações empíricas. Em que futura edição Samuelson tentará repensar a sua intenção principal de produzir um elefantíaco e dilatado manual ao estilo bagagem de mão, adicionando permanentemente pequenos pedaços de dados e de técnica, ao invés de se concentrar nos fundamentos da análise económica? E em que futura edição questionará seriamente, não essas “relevantes” preocupações da moda como a “qualidade de vida” ou a ecologia ou a alienação nas primeiras obras de Marx, mas sim o próprio cerne da economia contemporânea: o equilíbrio estático e o modelo keynesiano? Quando mesmo?

[Resenha da nona edição do manual Economics, de Paul Samuelson, originalmente publicada no The Wall Street Review of Books, dezembro de 1973. Texto original pode ser consultado aqui. O manual de economia escrito pelo próprio Murray Rothbard, ao estilo Misesiano, pode ser encontrado aqui.]

[1] Armen A. Alchian e William R. Allen, University Economics, 3ª ed. (Belmont, Calif.: Wadsworth Publishing, 1972).

[2] A discussão de Nordhaus-Tobin encontra-se em William Nordhaus e James Tobin, “Is Growth Obsolete?” Fifteeth Anniversary Colloquium V (New York: National Bureau of Economic Research—Columbia University Press, 1972). A crítica de Rubner à estatística do PNB encontra-se em Alex Rubner, Three Sacred Cows of Economics (New York: Barnes and Noble, 1970), pt 1. Vide também Oskar Morgenstern, On the Accuracy of Economic Observations, 2ª ed. rev. (Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1963).

[3] Victor R. Fuchs, “Difference in Hourly Earnings Between Men and Women”, Monthly Labor Review (May 1971): 9-15. Para uma manual introdutório que incorpora estes resultados, veja-se Roger Leroy Miller, Economics (San Francisco: Canfield Press, 1973).

[4] Podemos mencionar, a este respeito, o quão absurdo nos parece o facto de Samuelson incluir, nesta nona edição do seu manual introdutório, a discussão de uma teoria tão sofisticada e avançada como a do “reswitching”de capital (pp. 615-16). Aparentemente, a inclusão de uma suposta refutação da teoria austríaca (“ortodoxa”) do capital revelou-se demasiado tentadora para Samuelson, que assim a utilizou para tentar bater na ciência do livre mercado.

[5] Neste sentido, vide Peter T. Bauer, Dissent on Development: Studies and Debates in Development Economics (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1972), pp. 49–68.

Autor: Murray N. Rothbard contribuiu enormemente em áreas como economia, história ou filosofia política, unindo a Escola Austríaca de Economia a um compromisso fervoroso com a liberdade individual.

Tradução de Pedro Almeida Jorge

Nota: As visões expressas em misesportugal.com não são necessariamente as do Instituto Mises Portugal.

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